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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Grateful Dead - "Europe '72"



...mas aqui, queridos leitores, eles criaram mágica.


Quem conhece o Grateful Dead sabe que sua longa trajetória pode ser resumida em uma palavra: espontaneidade. Seja em sua vertente mais experimental ou na faceta country explorada no início dos anos 70, os malfeitores californianos sempre estiveram mais à vontade na estrada que no estúdio, fazendo com que cada apresentação ao vivo soasse única, com um repertório que desfilava uma infinidade de canções, acompanhadas de jam sessions igualmente infinitas.

E justamente essa espontaneidade, louvada pelas centenas de deadheads – seguidores fanáticos do grupo, que consideravam o compositor, cantor e guitarrista Jerry Garcia uma espécie de guru –, era, em algumas ocasiões, sua pedra de tropeço. Quando o Grateful Dead subia ao palco, as harmonias vocais, a afinação dos instrumentos e a precisão das notas tocadas não pareciam estar bem em primeiro plano.

Acontece que, em 1972, dois anos após o lançamento da notável dobradinha ”Workingman’s Dead”/”American Beauty”, considerada o mais bem sucedido período do Dead dentro do estúdio, a americaníssima banda resolveu dar suas voltas pela Europa, em uma turnê gravada, empacotada e lançada sob a apropriada alcunha de “Europe ‘72”. E o que eu posso dizer com toda a certeza é que o velho continente fez muito bem aos cowboys psicodélicos de São Francisco.

No LP triplo, também lançado em CD duplo numa edição caprichada da Rhino, a banda soa coesa e, ao mesmo tempo, absolutamente natural, fazendo fluir um som livre e incrivelmente aconchegante. Existe alguma coisa misteriosa que permeia todo o registro; algo que não pode ser estudado nem planejado. Simplesmente era pra ser assim.

O disco começa com “Cumberland Blues”, que parece ter sido extraída de uma mina estadunidense no início do séc. XX. Aqui a canção adquire muito mais brilho que em sua versão original, assim como “China Cat Sunflower” que, unida à tradicional “I Know You Rider”, formam uma única peça de incrível impacto. As guitarras de Garcia e Weir desenham a música de modo a elevar a imaginação e o espírito do ouvinte a alturas nada seguras. O coro final nos trás de volta à terra firme, num pouso que causa imediatas saudades da viagem.

É impossível ouvir as rurais ”He’s Gone”, “Ramble On Rose” e “Tenessee Jed” sem cantarolar suas melodias por semanas a fio, ou não sentir fortes ondas de emoção com “Morning Dew” e “Looks Like Rain”, essa última lançada apenas como faixa bônus na já citada edição em CD. Pra levantar a poeira amontoada no solado das botinas de couro, temos “One More Saturday Night”, “Sugar Magnolia” e “Mr. Charlie”.

Como ponto negativo, só posso citar a enrolação presente em “Truckin”, “Epilogue”, “Prelude” e nas faixas bônus que sucedem “Looks Like Rain”, todas contendo aquelas jams arrastadas que perdem a atenção dos ouvintes... digamos... mais sóbrios. Nada que comprometa, contudo, o status de Um Dos Melhores Discos Ao Vivo Que Eu Já Ouvi Em Minha Vida que o fabuloso “Europe ‘72” conquistou, mesmo que sem muita pretensão.

E aqui vai uma dica do João: da próxima vez em que você estiver pegando uma estrada, sozinho em seu carro, tendo apenas o silêncio da madrugada como companhia, jogue uma moeda na jukebox, ajeite o chapéu e acenda seu cigarro de palha. Seja qual for seu destino, ele vai parecer ter chegado cedo demais enquanto o velho Dead estiver rolando nos alto-falantes.

sábado, 17 de julho de 2010

Almôndegas - "Almôndegas"


Por Haig Berberian

A internet tem sido o mais eficiente meio de difusão de novos sons para quem tem o apetite sempre aberto aos diferentes estilos musicais do mundo todo. Para os exploradores de tesouros musicais escondidos então, tal ferramenta parece ter sido enviada pelos deuses diretamente do Olímpo. Muitos internautas adoram “cavucar” o Rock ‘n’ Roll dos buracos e cavernas mais obscuros da Terra, usando e abusando da tecnologia dos tão infames programinhas de compartilhamento, tão acusados de tirar o ganha-pão das pobres gravadoras, mas, por outro lado, responsáveis por revelar inúmeras bandas e artistas a um público que jamais teria acesso a eles, levando-os, inclusive, a adquirir os álbuns conhecidos graças aos downloads ilegais. Irônico, não?

Não obstante, é sobre outra grande ironia que pretendo discorrer na resenha de hoje. Os protagonistas dessa história de contradições são um conjunto das longínquas terras de Pelotas – e peço maturidade, querido leitor – cujo nome revela o teor altamente descontraído e natural de suas letras e filosofia de vida: Almôndegas. Pra quem não conhece, essa foi a primeira banda de Rock/MPB dos irmãos Kleiton e Kledir, famosos posteriormente por sua carreira como uma dupla. E não, eles não tocam música sertaneja, para a tristeza de muitos e minha profunda alegria.

“Mas onde está a ironia nisso tudo?”, pergunta-se o curioso internauta. A resposta é simples: uma das mais fortes características do grupo gaúcho era justamente a profunda aversão ao progresso e à modernidade, incluindo, é claro, a tecnologia, meio pelo qual eu tive o grande prazer – e agora você também, espero eu – de entrar em contato com essa música tão rica e arraigada à cultura gaúcha.

O álbum já começa com uma ode à vida simples no campo, “Sombra Fresca e Rock no Quintal”, talvez a faixa que mais aceite o rótulo de “Rock Rural”, estilo atribuído aos Almôndegas por muitos críticos – embora, em minha opinião, elementos da MPB predominem no trabalho deles, ao menos neste disco de estréia. Assim como a primeira faixa, a terceira e mais genial composição do disco, “Teia de Aranha”, parece ter sido cunhada por JJ Veiga, tamanha a ojeriza provocada na banda por quase tudo o que pode ser conectado à tomada. “Sou humano, mas namoro um computador / O progresso engoliu a nossa paz / E a teia engoliu a própria aranha”;

Ainda nesse espírito, a faixa “Almôndegas” trata do mesmo tema, só que dessa vez de forma mais bem humorada, utilizando-se de linguagem caipira e lógica simples, do tipo “Pra quê comprar Lamborghini se tem perna pra andar?”. Confesso, leitor, que eu responderia a essa pergunta sem grandes dificuldades.

“Olavo e Dorotéia (Uma Louca Estória de Amor)” é outra composição que merece destaque. Uma canção de belíssima singeleza, apesar do título um tanto piegas – odeio essa palavra, mas contento-me com ela no momento. Digna de nota também é “Daisy, My Love”, mais uma letra sensacional do grupo, unindo espírito crítico a humor.

Poupo meus internautas do enfado de um texto deveras longo – a recente profissão de publicitário vem me ensinando a importância da síntese – e já me despeço por aqui. Recomendo fortemente o álbum a quem deseja um pouquinho de cheiro de mato e bosta de cavalo impregnado nos muros de concreto da cidade, mesmo que somente pelos breves 33 minutos de duração do disco. Ou, se o ouvinte for um pouquinho espírito de porco, colocará o bucólico disco dos Almôndegas para tocar em seu “Lamborghini”. Prometo que não conto nada pro Kleiton. Nem pro Kledir. Até a próxima!

sábado, 20 de março de 2010

Coldplay - "Parachutes"


Ultimamente eu ando deixando um pouquinho de lado meu (lindíssimo, magnânimo, fantástico, excepcional) Prog Rock em detrimento de uma musica mais Pop. Os lamentos do Tears for Fears estão cada vez mais freqüentes em meus ouvidos, e o som requintado do Keane já ganhou mais uma execução em meu iTunes. Estava há um tempo, também, querendo re-ouvir “Parachutes”, o primeirão do Colplay, e a impressão causada em mim foi mais uma vez tão boa que eu não resisti em escrever uma resenha dedicada a ele.

Não pode ser desse mundo uma sucessão tão grande de musicas excelentes, formando a mais sublime trilha sonora para um mergulho na escuridão – acabo de me arrepiar ao som da guitarra de “Everything’s Not Lost”, mas deixemos a última música para o final. O álbum me parece um orgasmo de 40 minutos de duração. E não me venham com esse papo de “A Rush of Blood to the Head” que, por mais que seja um álbum notável e extremamente inspirado em vários momentos, não chega aos pés de seu antecessor.

“Parachutes” abre os anos 2000 de uma maneira que nem os mais mirabolantes fogos de artifício nas mais belas praias do planeta puderam fazer, trazendo em sua simplicidade um charme irresistível. O que dizer da beleza melódica do disco? Temas completamente inovadores, dez músicas de uma sonoridade única, assim como dez impressões digitais únicas que só saem de um único par de mãos. O Coldplay não é subproduto de nada.

Subverterei hoje meu paradigma de análise faixa-a-faixa devido à (louvável) homogeneidade sonora do trabalho. Terão espaço apenas as músicas mais excepcionais do álbum – “Yellow” not included – o que poupará o leitor do tédio proporcionado por uma resenha de três páginas. Aliás, aqui vai uma dica: desligue o PC e corra à cópia de “Parachutes” mais próxima à sua casa.

Para o internauta mais obstinado, aqui vão os destaques do disco: após a banda se apresentar ao ouvinte com a ótima balada semi-SciFi “Don’t Panic”, surge o primeiro momento realmente genial do disco, “Shiver”, que tive a oportunidade de conhecer – mesmo que tardiamente – por meio do jogo de PS3 Guitar Hero. Igualmente fantástica, “Spies” nos delicia com sua atmosfera melancólica de cinema noir.

Por mais que eu tente, não consigo segurar o sorriso ao ouvir os primeiros acordes de “Sparks”, uma lindíssima balada basicamente acústica, possuindo o brilho que faltariam nas baladas do disco seguinte da banda. O grande e – pasmem – inspiradíssimo hit “Trouble” tem como protagonistas o bem trabalhado contrabaixo na melodia principal da canção e a slide guitar floydiana no refrão, além da sensacional melodia vocal.

Tão breve quanto um salto a queda livre, a faixa título do álbum termina tão bela e repentinamente quanto começa, dando lugar às hipnóticas e belíssimas guitarras de “High Speed”. “We Never Change” serve de passagem para o grand finale, a apoteótica “Everyting’s Not Lost”, certamente uma das melhores composições não apenas do Coldplay, mas de toda a cena pop da década. Após uma introdução singela feita ao piano e cantada pelo fantástico Chris Martin, Jon Buckland oferece, gratuitamente, o riff mais simples e genialmente encaixado de todo o álbum. A banda nem termina de dizer adeus e já estamos com saudades. Fazer o quê se o disco é bom, né...

Está bem claro que eu falhei em minha tentativa de produzir uma resenha um pouco mais sucinta, com apenas comentários pontuais em algumas das faixas. Não faz mal, uma vez que todos já conhecem a prolixidade crônica desse senhor imaginário chamado João Lemmos. O que realmente importa aqui é a preciosidade de “Parachutes” e seu grande globo giratório amarelo, que a mim parece mais uma medalha de ouro reluzindo no peito de um medalhista olímpico. Ou no peito de um disco. Ou sei lá. Adeus.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Barca do Sol - "Pirata"


Hoje chega ao fim esse grandioso cruzeiro por toda a discografia d’A Barca do Sol, passando por mares agitados, calmarias, e paisagens intangíveis, vislumbrados apenas por meio de boa musica. O derradeiro álbum da banda, “Pirata”, é também o menos reconhecido de todos, não possuindo nem sequer uma versão em CD. Trata-se, porém, de um trabalho que faz jus ao restante da obra do grupo, cheio de momentos inspiradíssimos – como é de praxe quando o assunto é A Barca.

Já sem o violoncelo de Morelembaum, a banda apresenta uma razoável mudança de sonoridade no disco, talvez esse o fator responsável pela menor atenção dada a ele pelos admiradores do conjunto. Os ritmos brasileiros possuem maior evidência no álbum e, ao mesmo tempo, unem-se, em algumas composições, a estruturas e formas características do Progressivo, produzindo um resultado pra lá de satisfatório.

Exemplo dessa valorização à musica genuinamente nossa, “Vô Mimbora Pro Sertão” abre o disco de maneira regionalista, com vozes harmonizadas, letra simples, e percussão, com direito até a um solo de berimbau ao final da faixa.

O mesmo berimbau dá início a “Tereza Boca do Rio”, uma espécie de baião bem sóbrio, ao estilo d’A Barca. A bela faixa conta com simples e ótimos arranjos de voz, flauta, baixo, violões e percussão – além do já citado berimbau. Um momento bastante aconchegante e suave.

Emendada à canção anterior, “Mercado das Flores” mostra-se uma composição ainda melhor, repleta de variações rítmicas e instrumentais, ainda evidenciando a sonoridade brazuca, contendo, por exemplo, pitadas de samba – com direito à percussão caprichada – e musica mineira, numa amálgama muito coesa e de bom gosto. Destaque para os maravilhosos bandolins, que realmente fazem a diferença na faixa.

“Cavalo Marinho”, apesar de já ter sido lançada em “Corra o Risco”, supera tal versão devido à presença de duas vozes, em contraste com o vocal solitário de Olívia na primeira gravação. Os arranjos de violões são muito bem trabalhados, contendo um belo solo entre as partes cantadas. Outro motivo por que a versão de “Pirata” supera à de “Corra o Risco” é a menor repetição da letra.

A veia Prog do disco aparece pela primeira vez em “Jando”, mesclando arranjos abrasileirados a um Rock Progressivo extremamente competente e trabalhado. Os teclados são muito bem executados, assim como a bateria inquieta e quebrada. A banda foi muito feliz nessa mistura, criando, realmente, o “Prog à brasileira”, ao invés de simplesmente intercalar trechos de musica brasileira pura e, posteriormente, arranjos progressivos cheirando à Inglaterra.

Na seqüência, a emocionante “Jardim de Infância”, dispensando maiores detalhes devido a sua presença no já comentado álbum de estréia de Byington – apesar de aqui a canção parecer estar ainda mais deslumbrante.

Outro momento agradabilíssimo é “Desencontro” e sua bela melodia. Os arranjos discretos e requintados dão sabor emepebístico e jazzístico à obra.

A maravilhosa “Estrêla” merece grande destaque. Sua inspiradíssima melancolia agrada em cada mudança de acorde. Uma canção a ser bebida aos poucos, dotada daquela atmosfera intimista bem familiar aos fãs d’A Barca. A canção possui alguma coisa de Jazz, e um piano com dose extra de feeling. Muito bom!

Em contraste absoluto com qualquer outra composição da banda, “Manoel” já vem esculachando de cara, com seu sambinha tão malandro quanto o protagonista da canção. Muito divertida e descontraída, a faixa, apesar de ser um samba, contém uma bateria roqueira e solo de guitarra. O contrabaixo acústico também marca presença, assim como em diversas outras faixas do álbum.

“Rio Preto”, a exemplo de “Jando”, ostenta arranjos característicos do Progressivo mesclados à musica brasileira, sendo, porém, um pouco menos agressiva.

A instrumental “Canção Pra Ela” finaliza o disco de maneira comportada, não possuindo nenhuma característica muito marcante. Trata-se, contudo, de uma bela faixa.

E assim termina nossa saga musical, guiada por esse grupo de grande importância para a música nacional e de onde saíram renomados instrumentistas e compositores. Vale a pena comentar também a arte gráfica do disco, cujo autor é completamente desconhecido por mim. Trata-se, porém, de uma ilustração muito interessante, feita toda em escala de cinza, contendo um navio pirata, é claro, e diversos outros elementos condizentes à temática do álbum.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Olívia Byington - "Corra o Risco"


Nessa última terça-feira, enquanto o samba opulento ensaiava suas últimas passadas de carnaval, estava eu num ônibus voltando de um acampamento, com os fones atochados nos ouvidos. Ao ver, pela janela do veículo, árvores, nuvens e morros, imagens formavam-se em minha cabeça, fomentadas por aquela musicalidade incrível vinda do meu mp3 player. O som em questão era o maravilhoso “Corra o Risco”, primeiro álbum solo de Olívia Byington, maravilhosamente acompanhada pela Barca do Sol – é claro.

A cantora, desde cedo elogiada pelos críticos, já vinha trabalhando com Jaques Morelembaum no grupo “Antena Coletiva”. Então, evidentemente, ninguém melhor que ele e seus comparsas para conduzi-la nesse grande trabalho do riquíssimo e nem sempre reconhecido acervo brasileiro. O disco, lançado em 1978, além das incríveis faixas inéditas – algumas delas re-aproveitadas no último e excelente álbum da Barca, “Pirata”, do ano posterior – traz releituras de grandes composições d’A Barca do Sol, completamente revestidas de novos arranjos e, algumas vezes, até superando as versões originais.

“Fantasma da Ópera” abre muito bem o álbum, com arranjos absolutamente novos, bem mais carregados que em sua primeira versão. Apesar do glissando inconveniente de Olivia – fenômeno isolado da faixa, que fique bem claro – a canção ganha aqui uma roupagem interessantíssima, com percussão corporal e, no final, vocalizações quase indígenas, o grande destaque da música, em minha opinião. Tudo se mistura em uma grande festa sonora, aciganada, bem ao estilo d’A Barca. Extremamente empolgante.

Em contraste com a faixa anterior, “Lady Jane” é apresentada de maneira suave e lúdica, em que Olívia mostra com grande êxito seus dotes vocais, embalada pelo instrumental doce e límpido de sua fabulosa banda de apoio. É interessante notar o uso de teclados na obra, praticamente inexistentes nos dois primeiros discos d’A Barca. A banda executa também belíssimos vocais.

A primeira faixa inédita do disco, a própria “Corra o Risco” é uma grata surpresa aos fãs da banda. Olívia executa a maravilhosa melodia da canção, acompanhada unicamente pelo violoncelo, a que são acrescentados, gradualmente, os outros instrumentos. Cada estrofe recebe ornamentos diferenciados, criando uma atmosfera muito forte e sinistra. Vale citar mais uma vez a competência do grupo na feitura de climas maravilhosos, fazendo o ouvinte imaginar paisagens que servem de pano de fundo às canções. Destaque para o arranjo de flautas executado do 01:11 ao 01:32, lembrando um pouco o Genle Giant. Logo após, um belíssimo trecho, mais enérgico, é executado, um Folk de primeiríssima categoria.

“Jardim de Infância” configura-se em uma das mais belas canções que já ouvi em toda a minha vida. E quem me conhece sabe o quão difícil é me ouvir soltar máximas desse tipo. O trecho final sempre me toca muito, constituído de uma melodia erudita simplesmente deslumbrante. O canto lírico de Olívia torna-se um instrumento indispensável na composição, tanto que foi re-utilizado na versão do “Pirata”. Sublime.

Outro momento delicioso é “Banda dos Corações Solitários”, uma alusão ao mais importante álbum da mais importante banda de toda a história do Rock. Inédida, a faixa possui grande beleza melódica e arranjos suaves, muito pertinentes.

A próxima faixa, “Cavalo Marinho”, possui a melhor letra de todo o repertório da Barca do Sol. Uma poesia tão bela quanto curta, apenas quatro versos inspiradíssimos. Musicalmente, a canção não deixa nada a desejar, construída basicamente por dois violões dedilhados, acrescidos, posteriormente, a outros instrumentos, como flauta, violoncelo e órgão.

A sensacional “Lobo do Mar”, outro destaque absoluto na obra, possui grande riqueza de andamentos e temas variados, apresentando, em seu início, um quê de Genesis. O contraponto entre momentos tranquilos e agressivos é muito bem construído e coeso.

Arte. Essa é minha definição à finíssima “Água e Vinho”, dotada de uma tristeza gelada e grande requinte. A brilhante performance de Olívia, adicionada ao violoncelo, órgão, flauta e violão, fazem nossa alma realmente mergulhar na dramaticidade da canção. Belíssima letra.

Uma das releituras mais diferentes da original certamente é “Brilho da Noite”, que continua selvagem, mas de maneira completamente distinta. Ao contrário da versão contida no álbum homônimo d’A Barca do Sol, essencialmente acústica, em “Corra o Risco” a faixa abunda em sons elétricos de guitarra e violino destorcidos, teclados, e um baixo mal-crido - no bom sentido, éclaro. O resultado é muito bom, apesar do “CAAAARROOOO” da Olívia irritar um pouco.

Outra amostra do talento da vocalista e sua extensão vocal é “Minha Pena, Minha Dor”, acompanhada por um belo arranjo para piano.

A sensacional faixa “Luz do Tango” espanca com violência a cara do ouvinte – sutil, não? – encerrando esse disco fora do comum. A melodia vocal começa com guitarras abstratas, colorida, depois, pelos outros instrumentos que surgem aos poucos. A canção vai subindo de tom a cada estrofe, sofrendo mudanças – hora bruscas, hora sutis – de instrumentação e arranjos. O resultado é sensacional e extremamente poderoso, fluido, contendo aquela mágica que faz as cabeças balançarem – em desespero, no caso das mães.

Grandioso. “Corra o Risco” deveria, realmente, ser reconhecido como um clássico absoluto do Rock/MPB. Trata-se do último álbum em que Morelembaum trabalha com a Barca, sendo que, em “Pirata”, a banda já não conta mais com seu reverenciado violoncelista.

Enquanto eu puder desfrutar de música de tamanha qualidade, originalidade e sensibilidade, meus introspectivos carnavais estarão garantidos. E que passem, longamente e por muitas vezes, as árvores, nuvens e morros pelas janelas do ônibus.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Barca do Sol - "Durante o Verão"


Aproveitando o embalo da resenha anterior, continuarei a escrever sobre este grande conjunto brasileiro que foi A Barca do Sol. Seguirei cronologicamente, tratando hoje de seu segundo e mais aclamado disco, “Durante o Verão”, lançado em 1976 pela gravadora Continental, e produzido por Egberto Gismonti. A banda, nesse trabalho, após uma mudança de formação, utilizou mais que nunca a guitarra elétrica, flertando um pouco mais com o Rock Progressivo inglês e produzindo um álbum finíssimo, digno de toda admiração a ele atribuída.

Ao som de gaivotas e ventania – mais litorâneo impossível – começa a faixa título, construída sobre a base tradicional das canções da Barca: flauta transversal, violões dedilhados, percussão e o violoncelo de Jacques. A diferença é que a faixa conta com um contrabaixo acústico, muito bem executado, por sinal.

“Hotel Colonial”, uma das grandes composições do álbum, é mais uma amostra da grande capacidade criativa da banda e sua facilidade em criar atmosferas sombrias e, digamos, “ameaçadoras”. A faixa tem início com um apito de navio, executado juntamente com o violoncelo, preparando a entrada para uma guitarra dedilhada e a melodia vocal. A faixa possui um belo trabalho vocal e instrumental, abundante em variações rítmicas e riqueza de texturas. Destaque para o riff executado após a menção do título na letra e para os arranjos de violões, guitarra e violoncelo.

Lenta e triste, “A Língua e a Bainha” vem como um bálsamo, envolvendo-nos com sua beleza melódica e harmônica. Trata-se de uma canção intimista, para se ouvir sozinho, saboreando cada nuance sonora.

“Os Pilares da Cultura”, a mais pesada do disco, caracteriza-se por guitarras destorcidas, bateria quebrada e uma letra muito interessante, um emaranhado de ditados, clichês, palavras de ordem e até frases publicitárias conhecidas no Brasil. Aqui, A Barca do Sol mostra sua face mais roqueira e se dá muito bem.

O disco segue com “Karen”, um retrato musical do cotidiano de uma mulher, cantarolando em sua casa, acompanhada pelos ruídos do rádio ligado, pássaros cantando, e um carro saindo da garagem. Ao cessar o canto da mulher, é a vez da banda executar a mesma melodia, utilizando apenas flauta e violão. A única faixa instrumental do LP.

Outro grande momento da obra, “Memorial Day” inicia-se com conversas e exclamações aleatórias – o ouvinte mais atento ouvirá, inclusive, um “Batman e Robin vem aí”. A canção é dotada de uma maravilhosa melodia, além de arranjos soberbos. A banda inclusive arrisca um cânone, lembrando o Gentle Giant, seguido de um trecho de Rock Progressivo classe A, com uma pegada bastante enérgica. Belíssima execução de todos os instrumentos.

A banda nos serve um verdadeiro “Banquete”, apetecendo e saciando a todo ouvinte ávido por um sabor proporcionado apenas por um disco de tamanho cacife. O violoncelo de Jacques, soberano, afirma definitivamente a faixa como uma das mais belas composições de todo o repertório do grupo.

“Belladona, Lady of the Rocks” possui um caráter meio latino, adicionando um tempero diferenciado ao disco. As guitarras destorcidas e percussão marcam presença mais uma vez.

O disco fecha com “Outros Carnavais”. Bem direta, a canção dispensa introdução, já começando com tudo. Aqui encontramos os ingredientes presentes na maioria das receitas da Barca, ou seja, instrumentação acústica e arranjos puxados para o Folk.

Como o caro leitor pode perceber, o segundo disco d’A Barca do Sol é um dos casos raros de 100% de aproveitamento, não possuindo uma só canção ruim. E o pior é que eu fui perceber o quão bom é o disco apenas essa semana! Vai entender...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A Barca do Sol - "A Barca do Sol"


“Quanto ao nosso som, dizer que fazemos rock puro seria o mesmo que ouvir cinco russos dando uma de Originais do Samba. Ou um bando de japoneses tocando baião. Nós, como eles, não teríamos swing”. Essa definição, dada pela própria Barca do Sol, traduz muito do universo e da visão musical desse tão peculiar grupo formado no Rio de Janeiro, em 1973. E, de fato, o que esses nove caras fizeram não caberia tão facilmente em um só rótulo.

O disco resenhado hoje é o álbum de estréia da banda, lançado em 1974, e é, em minha opinião, o mais original e experimental de todos eles. Aliás, nada aqui é convencional: melodias estranhas, instrumentação intrigante, letras enigmáticas, e uma criatividade fora do comum. Ao contrário da maioria das bandas nacionais da época, A Barca do Sol não se preocupava em imitar o som da gringalhada, optando por uma música que os fizeram únicos.

Não é à toa que o grupo chamou tanto a atenção de Egberto Gismonti, um dos grandes monstros da música brasileira que, além de produzir o disco, ainda fez pequenas participações, tocando sintetizador em duas das faixas. Outras presenças marcantes são a do violoncelista Jaques Morelembaum, membro da banda durante seus dois primeiros álbuns, e a do flautista bretão Richard Court, mais conhecido como Ritchie – sim, aquele mesmo Ritchie de “Menina Veneno”, por mais estranho que possa parecer!

O disco começa com “A Primeira Batalha” que, apesar de sua letra um tanto inconsistente e repetitiva, possui melodia e instrumentação impecáveis. A canção difere-se bastante do restante do repertório do grupo, dominado por letras introspectivas e melodias sombrias. Os violões, as flautas, o violoncelo e a percussão dão à faixa um tom descontraído e cigano, com uma sonoridade folk muito gostosa e natural.

A próxima faixa, “Brilho da Noite”, é um grande destaque não só do álbum, mas de todo o repertório da Barca. Trata-se de uma música extremamente dramática e teatral, dando a sensação de que se está no meio do mato com animais selvagens e outras criaturas noturnas à espreita. Letra e arranjos sensacionais, afirmando o som agreste da faixa.

“Arremesso”, apesar de uma bela canção, é um tanto monótona. De qualquer forma, vale sua vaga no disco, possuindo bons arranjos e trechos inspirados. Destaque para o violoncelo de Jaques. Ainda no mesmo clima melancólico e intimista, segue-se “As Boas Consciências”, possuindo, também, delicados arranjos, todos de muito bom gosto.

Um tanto mais estranha que as duas canções anteriores, “Caminhão” apresenta uma sonoridade bastante tribal, com os arranjos caóticos e ousados, tão presentes na obra.

Ótima melodia e letra bem interessante são as principais características de “Lady Jane”, que emenda-se com “Dragão da Bondade”, outra faixa muito agradável. Apesar de momentos doces, a faixa possui uma instrumentação mais pesada em seu refrão, marcada pela flauta inquieta, violões batidos e o violoncelo marcante de Morelembaum. Seu único ponto negativo é um violinozinho indigesto, no finalzinho da faixa. Mas nada que a comprometa...

“Alaska” é outro destaque do disco. Sua melodia nada convencional e sua letra ainda mais peculiar chamam muito a atenção, e agradarão a qualquer ouvinte à procura de algo diferente. A faixa possui mudanças de tom e de ritmo, contribuindo ainda mais para sua riqueza e distinção.

O álbum segue com outro grande momento, “Fantasma da Ópera”. Já está ficando chato, mas eu tenho a obrigação de repetir mais uma vez que a banda foi extremamente feliz em seus arranjos, melodias e letra. A faixa tem início com uma vocalização muito interessante, lembrando grandes grupos brasileiros como, por exemplo, o MPB4.

“Corsário Satã”, a mais agressiva do disco, faz o ouvinte sentir-se, realmente, em um navio pirata. Trata-se de uma das grandes composições da carreira do grupo, extremamente imaginativa e expressiva. O melhor é que nem é preciso de um mapa do tesouro para se ter acesso a essa preciosidade.

A Barca do Sol chega finalmente ao porto com a faixa título, muito bela e delicada. É hora dos tripulantes descerem ao solo, já com certa nostalgia, para relembrarem os grandes momentos dessa viagem.

Resumo da ópera: eu não sei se posso chamar “A Barca do Sol” de um disco de Rock; também não sei se devo chamá-lo de um álbum de MPB, ou seja lá o que diabos for. Só posso afirmar uma coisa: trata-se de ótima música. E é só isso o que interessa.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

David Gilmour - "On an Island"


Ainda bem que nem tudo que é bom dura pouco. Se tal máxima fosse verdadeira, não teríamos na ativa, mesmo depois de velhos, grandes bandas e personalidades do mundo do Rock. Em alguns casos, a idade parece não chegar nunca, a exemplo dos Rolling Stones, banda que, debaixo de puros pele e osso, ainda é conservada uma vitalidade invejável e inédita. Em outros casos, há um amadurecimento bastante proveitoso – e não me refiro ao “amadurecimento” que, na verdade, traduz-se como “tornar-se insosso”, como é decorrente em bandas que já carregam mais de 30 anos de estrada nas costas.

É de um caso desse tipo, de “amadurecimento positivo”, que trata a resenha de hoje. David Gilmour, ex-guitarrista do Pink Floyd, e um dos mais importantes e originais em seu instrumento, após adquirir muitas rugas e uma invejável pança, deu as caras novamente em 2006 com uma grata surpresa: seu terceiro álbum solo, “On an Island”.

É evidente que eu não quero dizer aqui que o velho Gilmour superou sua obra produzida juntamente com o Floyd, pois seria um sacrilégio. O que aqueles garotos de Cambridge produziram na década de 70 é inigualável. Posso afirmar, contudo, que, dos três álbuns de estúdio em que o guitar-hero do feeling se aventurou em produzir, esse é o mais consistente. Quem ama os solos épicos de Gilmour – todo fã de Rock setentista – não poderá resistir aos aqui executados. Sim, o velho enrugado e barrigudo ainda está em plena forma.

O disco começa bem com a atmosférica e retalhada “Castellorizon”, antecipando um pouquinho de cada faixa que está por vir. Após essa confusão de diferentes sonoridades sobrepostas e remendadas, Mr. Dave coloca seus dedos e sua guitarra para funcionar – sem mencionar a pedaleira, sempre presente ao longo da obra.

A faixa serve de prelúdio para o carro-chefe do disco, a própria “On an Island”, contando com a participação especialíssima de David Crosby e Graham Nash nos vocais de apoio. Trata-se de uma belíssima canção, certamente uma das melhores do disco. Como era de se esperar, a música contém um grande solo de guitarra daqueles que só David Gilmour poderia criar.

“The Blue”, suave e fluida, é um verdadeiro mergulho em calmas águas, tanto no campo musical quanto no lírico. Aliás, o disco todo possui uma sonoridade meio “aquática” – e isso não é mais um de meus devaneios, mas uma consideração do próprio autor – o que vai bem a calhar tanto com o título do álbum quanto com a arte gráfica. Um resultado belíssimo é conseguido no DVD ao vivo no Royal Albert Hall, em que “The Blue” é combinada com os efeitos visuais tão utilizados por Gilmour desde seus tempos de Pink Floyd.

A faixa seguinte, “Take a Breath”, a mais agressiva de toda a obra, possui algo de Syd Barrett, apezar de conter, também, a sonoridade do Floyd “Era Gilmour”. A cancão destaca-se na obra – mesmo porque quebra a placidez predominante no trabalho – e possui um efeito um tanto hipinotizante.

E quem foi que disse que David Gilmour são só instrumentos de cordas? “Red Sky at Night”, obra instrumental que poderia perfeitamente estar contida no álbum “The Division Bell”, nos apresenta o velho arriscando um sax – pra quê mexer com Dick Perry??, hehehe.

“This Heaven”, com forte influência de música negra americana, é outra canção de destaque, possuindo sonoridade mais rústica e um clima bastante descontraído.

Quem mete o bico no disco dessa vez, em “Then I Close My Eyes”, é Robert Wyatt, um dos nomes máximos do sub-gênero Progressivo conhecido como Canterbury Scene, e integrante fundador do Soft Machine. Wyatt faz sua participação tocando trompete, no bom estilo “Army of Salvation”, como brincou o próprio músico.

“Smile” é mais uma belíssima canção, composta por Gilmour em parceria com sua esposa, Polly Samson, como a maioria das musicas do disco. Bela melodia e instrumentação intimista são as principais marcas da canção, além da voz soprano de Polly.

A próxima faixa, “A Pocketful of Stones”, bela, solitária e misteriosa, me parece uma homenagem a Syd Barrett, membro fundador e ex-lider do Pink Floyd, vítima de seu exagero com as drogas, principalmente o ácido. Syd, ainda jovem, ficou esquizofrênico, recuperando-se, porém, ao longo de sua vida de reclusão. Infelizmente, o músico veio a falecer em 2007.

O disco termina com a canção de maior beleza melódica de toda a obra, “Where We Start”, uma das minhas favoritas. Momento realmente inspirado, simples e verdadeiro, possuindo uma delicadeza e um charme encantadores.

É necessário ressaltar a participação de Richard Wright, ex-tecladista do Floyd, em várias das faixas do disco. Richard faleceu este ano, vítima de um câncer com o qual vinha lutando há algum tempo. Outra grande perda para os fãs do Pink Floyd, como eu.

“On an Island”, um álbum bastante comportado, como era de se esperar, não agradará ouvintes ávidos por maiores audácias sonoras; será um prato cheio, porém, a qualquer pessoa a procura de uma sombra de árvore, vista para o mar, gaivotas no céu, e, principalmente, sossego. Eu aceito a passagem de bom grado.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Titãs - "Acústico MTV"


Hoje eu resolvi valorizar o produto nacional. Nada de bandas gringas setentistas, mas sim, um grupo brazuca que gravou, já na segunda metade da década de 90, um dos álbuns mais importantes e representativos da minha vida: os Titãs. O álbum é o Acústico MTV. Já vou avisando aos amados leitores que esta resenha trará consigo alto grau de romantismo e pessoalidade, mas, podem ter certeza, muita honestidade também.

Em minha opinião, a série Acústico MTV, uma verdadeira máquina de hits e grana, nunca produziu uma obra de tamanha qualidade e distinção – isto é, em âmbito nacional. Eu me lembro de sempre dizer: “nem os Engenheiros do Hawaii fariam um acústico tão bom”. Dito e feito. Ao contrário do popzinho 4/4 do acústico da banda gaúcha, os Titãs realmente produziram algo fino, acompanhados por uma equipe de peso, contando com arranjos fabulosos e produção esmerada. Aliás, com Marcelo Martins, Jacques Morelembaum – ex-A Barca do Sol – e Liminha – ex-Mutantes – por trás dos arranjos é covardia, né?!

O show causou grande curiosidade entre os fãs e os diversos músicos e outros artistas brasileiros. Afinal, os Titãs eram sinônimo de barulho e irreverência, sendo difícil imagina-los em banquinhos de madeira, dedilhando violões. Aliás, “violões” não era uma palavra nada comum no vocabulário da banda, que sempre teve preferência pelas guitarras destorcidas.

Como o disco possui 22 faixas, não discorrerei longamente sobre os detalhes de cada canção, dando apenas uma visão panorâmica do disco. É claro que as melhores canções merecem maior destaque.

O disco começa muito bem com “Comida”, revestida com um arranjo que, a meu ver, foi puxado do Ray Charles. Fito Paez faz sua contribuição em “Go Back”, outro excelente momento do álbum. Em canções como “Os Cegos do Castelo”; “Nem 5 Minutos Guardados”, uma das mais belas do set list; “Flores”, com participação de Marisa Monte; “Palavras”; “A Melhor Forma”; e “Não Vou Lutar”, a mini-orquestra adiciona às belas melodias um requinte simplesmente irresistível. O bom gosto e a delicadeza dos arranjos de metais, madeiras e, principalmente, cordas, são de arrepiar. São grandes o prazer e a nostalgia que sinto ao escutar tais canções, que foram trilha sonora de uma maravilhosa fase da minha vida.

Merecem menção também a mórbida “O Pulso”, com os vocais do titã desertor Arnaldo Antunes; a descontraída “Família”; “Marvin” e toda sua melancolia; e “Televisão”, um divertidíssimo Blues em que Rita Lee acompanha os marmanjos.

Nem tudo, porém, são flores. Com todo o respeito a Jimmy Cliff, “Querem Meu Sangue” não me é muito agradável aos ouvidos, assim como “Homem Primata” – talvez devido à minha implicância com o Ska. Esses tropeços – digo, tropeços na minha humilde opinião, é claro – não comprometem em nada o álbum, que contém infinitamente mais pontos positivos que negativos.

Como é de praxe, aqui vão minhas considerações sobre o visual do disco. Os tons de marrom dão um caráter rústico de muito bom gosto ao álbum, provocando uma sensação gostosa. Eu, particularmente, sou fã de cores escuras e frias, presentes tanto no encarte do CD quanto no cenário do show. E que cenário! Teatralidade e drama estão contidos nos prédios e nuvens colocados ao fundo do palco, dando o clima sob medida ao espetáculo. Aliás, tudo aqui foi feito na medida certa. A MTV, dessa vez, acertou na mosca... E os Titãs também, é claro!